Crônicas de um pai solteiro subassalariado e interiorano
   
 
   



BRASIL, Sudeste, Jaculândia, Homem, de 26 a 35 anos, Arte e cultura, Bebidas e vinhos, outras coisas boas e raras dessa vida..
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Teatro

Há um silêncio palpável no ar, talvez seja toda essa fumaça cênica. Nunca havia reparado na textura da cortina vermelha que vela o palco, principalmente pelo lado de trás, esse veludo grosso e um pouco áspero. O chiado curto e repetido que lembra o som de meu avô pedindo silêncio na bagunça dos primos me avisa que lá vem mais fumaça tossida no espaço. Os atores lá do outro lado do palco são meras silhuetas pálidas, imóveis, também esperando ansiosamente. Ao enxergá-los percebo que ainda estou de óculos e quebro abruptamente a formação, correndo o mais discretamente que posso de volta para o camarim. Deixo-os ali em qualquer lugar (do que é claro que me arrependerei quando minutos mais tarde precisar deles desesperadamente, e que é claro que voltarei a entrar com eles em cena quando não poderia), ajeito o figurino no irresistível espelho e volto pro palco correndo. Assim que contorno a cortina preta que define a coxia, a cortina vermelha do palco já aparece escancarada nos flancos, exibindo a sinuosa e esguia silhueta de uma bela jovem segurando uma vela, em meio aquela fumaça toda. Páro de susto, e um segundo se passa. Já sem os óculos, vejo através de minha severa miopia a massa disforme e homogênea do público, rostos alinhados silenciosamente, atentos à peça que já começou. Caminho lentamente de volta para meu lugar, e percebo que a narração poética de Carlos Vereza já menciona que "...um arrtesão eshculpiria floresh nush cabelush..." de alguém. Parado em minha posição, tento fazer um check-list interminável de entradas e saídas de palco, mas sou envolvido pela beleza do poema, do lirismo da forma feminina que ampara a inabalável chama da vela no centro do palco. Fecho meus olhos para concentrar-me na condição humana ali representada, nas metáforas que iremos compor em breve na cena de abertura. Meu pé descalço acaricia involuntariamente os tacos de madeira do piso, um inquieto e instintivo movimento. "E se não desse cerrto, ao menush teríamush tentado". Quase me permito um sorriso ao perceber quanto sentido aquela frase fazia naquele momento, mas a música de fundo vai nascendo com um pânico que minha frágil auto-confiança vinha disfarçando de mim mesmo. Assim o poema acabou, e assim inicia-se a peça: Vislumbro os primeiros movimentos de meus colegas, e a partir desse momento, desse primeiro passo, a partir do impacto de meu pé naquele palco, eu decido que quero muito tudo aquilo. Quero que aquele passo seja o primeiro de uma caminhada, feliz com a certeza de que o que me realizou foi mesmo a sensação de ter conseguido superar tudo aquilo que me propus, todo aquele desafio. Saí ainda meio que em estado de graça, e demorou para que toda aquela energia se dissipasse dentro de mim. Não havia personagem, aplausos ou congratulações. Não havia nenhuma lembrança do que fiz de errado ou certo. Apenas uma satisfação, uma endorfina que entorpecia meu raciocínio e adrenalizava meu corpo. Depois das apresentações, sentar numa mesa com meus irmãos, dar uma volta com minhas amigas, bebericar algum álcool e tentar conversar trivialidades... tudo aquilo me trazia um prazer enorme, mas silenciosamente distante. Eu havia superado um desafio despretensioso, porém proposto com valentia e determinação, e aquele passo destemido agora parece querer me levar a novos horizontes.



Escrito por Leandro às 12h58
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