Crônicas de um pai solteiro subassalariado e interiorano
   
 
   



BRASIL, Sudeste, Jaculândia, Homem, de 26 a 35 anos, Arte e cultura, Bebidas e vinhos, outras coisas boas e raras dessa vida..
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Epístola ao Rei

Nunca soube como alcançar os seus ouvidos: a vida inteira acenei pra ti como uma criança eufórica e atrapalhada que tenta chamar a atenção de um distraído pai. Portanto, no anseio de ser informal sem ser desrespeitoso, escrevo-te uma carta. Mais do que a devida intimidade, falta-me também a coragem, e a força, para um contato mais aproximado – paciência, a culpa dessas fraquezas é só minha: releve. Mas essa despretensiosa missiva nada tem de especial, não – eu sei que pode não soar bem aos seus ouvidos, mas vamos fingir que eu tenha escrito muitas delas, e o que seria ainda mais irônico, vamos fingir que você tenha até respondido algumas.

 

Nem saberia por onde começar. Não pretendo perder nosso tempo – eu sei que você tem muito, mas eu nem tanto. Tampouco quero te entediar com clichês – você tem coisas mais importantes para se preocupar, com certeza. Bem, então, agradeço a inusitada convivência com Bruce, por exemplo. Ele me ensina humildade com seu companheirismo respeitoso e incondicional. E manda um beijo saudoso pra Loah, falando nisso. Diga as minhas sobrinhas que perdoem minha distante negligência. Diga a elas que aceitem esse amor esquisito. Eu não soube como lidar com minha família, e provavelmente aprenderei a compreender esses sentimentos tarde demais – conforta-me a certeza de que eles sabem que fui eu quem bagunçou tudo. Peço desculpas por minha debilidade, minha desestrutura, minha comodidade, minhas defesas. Perdoe essa contraditória fragilidade que construiu sólidos muros ao meu redor, nesse bunker de mim mesmo.

 

Agradeço a Flora. Eu sei, prometi fugir de clichês, mas é inevitável reconhecer a influência de seu bom-humor e de sua criatividade em minha vida. Leve, ágil e feliz Flora, rodopiando com seu vestidinho sujo como uma folha que desce dos céus a cantarolar com seu inglês impossível. Só lamento não ter na função de pai a desenvoltura que ela precisaria, ou a presença que ela merece. E perdoe minhas desventuras – se eu causei tanta dor nessas andanças foi por não caber o amor nesse coração que você me deu. Agradeço os amigos e ainda mais as amigas: nisso você caprichou, eu reconheço! Cabe aqui aquela piscadela entre cúmplices, como se eu tivesse a liberdade – mas é algo que eu faria só para quebrar o gelo.

 

Enfim, quero me reerguer, mas acho que preciso de uma forcinha aqui. Então faça um desconto e embrulhe pra viagem: não pretendo ficar nem um minuto a mais nem um minuto a menos do que o necessário. Portanto, seja razoável.

                       



Escrito por Leandro às 10h01
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