Crônicas de um pai solteiro subassalariado e interiorano
   
 
   



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A Tempestade

Amigos e amores atravessam os oceanos.

A lembrança da alegria de um livro ou canção.

Sem sentido, a boemia encurtava os lânguidos anos

entre uma e outra fugaz paixão.

 

     Como numa festa que termina de dia

     deixando cheiros que a casa desconhecia.

 

Seus quadros hibernam em caixas de papelão.

Sua música lacrada pelo frio inevitável.

Espalhou suas poucas coisas na aspereza do chão,

e escolheu metade delas com um esforço louvável.

 

     A outra metade, e todo o resto, ele sabia

     que levá-la consigo ele jamais poderia.

 

Onde deixar suas plantas, o que fazer de seu cão?

O peso de uma história que o destino arrasta.

Trancar as portas e as memórias do coração,

Coisas que o tempo, com sorte, afasta.

 

     A esperança da misericórdia é a melancolia

     com a qual, companheira fiel, ele viveria.

 

Precisou de uma coragem que sabia que não tinha.

O soldado desarmado que não abandona seu posto.

E ainda, rindo, ironizava: “Que sorte a minha!”,

mesmo quando as lágrimas riscavam seu rosto.

  

     Uma força sem a qual jamais sobreviveria

     em seu peito crescia, dia após dia.

 

Recomeçou e errou de novo, inevitavelmente.

Mas jamais desistiu de terminar a sua dança.

Assim tudo passou, pois nada é permanente,

apenas a vontade, a arte e a esperança.

 

     Enfim a vida se ajeitou, como o tempo assim queria,

     E não tardou a relembrar-se das doçuras da alegria.



Escrito por Leandro às 16h16
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