Amigos e amores atravessam os oceanos.
A lembrança da alegria de um livro ou canção.
Sem sentido, a boemia encurtava os lânguidos anos
entre uma e outra fugaz paixão.
Como numa festa que termina de dia
deixando cheiros que a casa desconhecia.
Seus quadros hibernam em caixas de papelão.
Sua música lacrada pelo frio inevitável.
Espalhou suas poucas coisas na aspereza do chão,
e escolheu metade delas com um esforço louvável.
A outra metade, e todo o resto, ele sabia
que levá-la consigo ele jamais poderia.
Onde deixar suas plantas, o que fazer de seu cão?
O peso de uma história que o destino arrasta.
Trancar as portas e as memórias do coração,
Coisas que o tempo, com sorte, afasta.
A esperança da misericórdia é a melancolia
com a qual, companheira fiel, ele viveria.
Precisou de uma coragem que sabia que não tinha.
O soldado desarmado que não abandona seu posto.
E ainda, rindo, ironizava: “Que sorte a minha!”,
mesmo quando as lágrimas riscavam seu rosto.
Uma força sem a qual jamais sobreviveria
em seu peito crescia, dia após dia.
Recomeçou e errou de novo, inevitavelmente.
Mas jamais desistiu de terminar a sua dança.
Assim tudo passou, pois nada é permanente,
apenas a vontade, a arte e a esperança.
Enfim a vida se ajeitou, como o tempo assim queria,
E não tardou a relembrar-se das doçuras da alegria.