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Relato da Derrota
Um estrondo estala a poucos quilômetros daqui. Entre mortos e feridos, recuamos cabisbaixos sob o peso da impiedosa chuva. Nossos soldados, não precisando disfarçar as lágrimas, retornam penosamente numa marcha desritmada - suas espadas, gastas em vão, parecem muito mais pesadas agora. O cheiro de suor e sangue é encoberto pelo perfume da terra molhada, cujas árvores transmitem uma silenciosa melancolia que também parecem padecer, solidárias conosco. O único som que se ouve são as gotas pesadas em suas folhas – e nada mais. Nem um murmúrio, um suspiro, um lamento exteriorizado, nada - nem mesmo os lentos passos desses valentes soldados. Imagens dos irmãos caídos bravamente na batalha nos castigam a cada duro passo, numa inevitável tortura interna. A dor é grande, mas é como se, no íntimo de cada um aqui, esperássemos o resultado desastroso.
O mais doloroso são as perdas numa luta por algo que já não acreditávamos com tanto ardor. O olhar desfocado e distante de alguns parecem encarar o fato de que nunca tivemos deveras tanta fé assim, mas lamentam que agora é tarde. A sensação de desperdício sufoca o orgulho maculado, tornando-se a mais profunda chaga em um soldado leal. Sei que deram tudo de si, eu vi, eu estava lá e vibrei por esses jovens, mas não foi o suficiente, infelizmente. O que me consome, mais do que não ter observado o erro na estratégia ou ter perdido nossos irmãos, é não saber o que será desses homens, o que será de nós nesse retorno.
Como estará o mundo fora dessa densa floresta? Quanto tempo, quanta energia... quanto sangue... quanta alma foi depositada nessa chance? Mais um trovão estala com fúria, e seu eco se espalha por entre os troncos retorcidos dos carvalhos. Retrocedendo, estamos nos afastando do campo de batalha, cujas doloridas lembranças nos impedirão de olhar para lá tão cedo. A chuva, castigo e bênção, lamenta conosco: é mesmo uma pena.
Escrito por Leandro às 21h46
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