Crônicas de um pai solteiro subassalariado e interiorano
   
 
   



BRASIL, Sudeste, Jaculândia, Homem, de 26 a 35 anos, Arte e cultura, Bebidas e vinhos, outras coisas boas e raras dessa vida..
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A incansável Trupe Resignada de mestre Pierrot

Palmas, vivas e tamancos,

Tambor e flauta vêm distantes.

Trilha acima, sinuosa,

Coloridos, mambembes, errantes.

 

Chegai-vos, ó minhas senhoras!

Chegai-vos, ó meus senhores!

Juntai mãos, e dancemos juntos

Na roda dos sonhadores!

 

Um passo à frente com vontade.

O outro de trás logo hesita.

A cintura quase não vai

E na volta finge que fica.

 

As mãos não se soltam jamais.

Pelo menos não agora.

Dois passos para o lado certo

E entra voltando por fora.

 

Quem se permite ilusão

Entrai-vos todos sem demora!

Tirai vossas luvas, e relógios,

Vem meu senhor, vem senhora!

 

Quem acha que merece música

Apito e bolha-de-sabão.

Quem põe cor no cinza escuro

Vem dançar essa canção.

 

Vem conosco pro coreto,

Nessa desengonçada dança.

Vista no rosto mil sorrisos

Fantasiados de esperança.

 

E assim celebraram os estranhos,

Brincando no meio da rua.

Só foram embora da missa

Bem depois do cair da lua.

 

A saudade é como um eco

Distante, abafado e repetido.

Mas a canção ficou conosco

Quando nada mais fazia sentido.

 

Dancemos, portanto, ó senhoras!

Dancemos, então meus senhores!

Esqueçamos das tolas tristezas

Na roda dos sonhadores!

 



Escrito por Leandro às 16h28
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Teatro

Há um silêncio palpável no ar, talvez seja toda essa fumaça cênica. Nunca havia reparado na textura da cortina vermelha que vela o palco, principalmente pelo lado de trás, esse veludo grosso e um pouco áspero. O chiado curto e repetido que lembra o som de meu avô pedindo silêncio na bagunça dos primos me avisa que lá vem mais fumaça tossida no espaço. Os atores lá do outro lado do palco são meras silhuetas pálidas, imóveis, também esperando ansiosamente. Ao enxergá-los percebo que ainda estou de óculos e quebro abruptamente a formação, correndo o mais discretamente que posso de volta para o camarim. Deixo-os ali em qualquer lugar (do que é claro que me arrependerei quando minutos mais tarde precisar deles desesperadamente, e que é claro que voltarei a entrar com eles em cena quando não poderia), ajeito o figurino no irresistível espelho e volto pro palco correndo. Assim que contorno a cortina preta que define a coxia, a cortina vermelha do palco já aparece escancarada nos flancos, exibindo a sinuosa e esguia silhueta de uma bela jovem segurando uma vela, em meio aquela fumaça toda. Páro de susto, e um segundo se passa. Já sem os óculos, vejo através de minha severa miopia a massa disforme e homogênea do público, rostos alinhados silenciosamente, atentos à peça que já começou. Caminho lentamente de volta para meu lugar, e percebo que a narração poética de Carlos Vereza já menciona que "...um arrtesão eshculpiria floresh nush cabelush..." de alguém. Parado em minha posição, tento fazer um check-list interminável de entradas e saídas de palco, mas sou envolvido pela beleza do poema, do lirismo da forma feminina que ampara a inabalável chama da vela no centro do palco. Fecho meus olhos para concentrar-me na condição humana ali representada, nas metáforas que iremos compor em breve na cena de abertura. Meu pé descalço acaricia involuntariamente os tacos de madeira do piso, um inquieto e instintivo movimento. "E se não desse cerrto, ao menush teríamush tentado". Quase me permito um sorriso ao perceber quanto sentido aquela frase fazia naquele momento, mas a música de fundo vai nascendo com um pânico que minha frágil auto-confiança vinha disfarçando de mim mesmo. Assim o poema acabou, e assim inicia-se a peça: Vislumbro os primeiros movimentos de meus colegas, e a partir desse momento, desse primeiro passo, a partir do impacto de meu pé naquele palco, eu decido que quero muito tudo aquilo. Quero que aquele passo seja o primeiro de uma caminhada, feliz com a certeza de que o que me realizou foi mesmo a sensação de ter conseguido superar tudo aquilo que me propus, todo aquele desafio. Saí ainda meio que em estado de graça, e demorou para que toda aquela energia se dissipasse dentro de mim. Não havia personagem, aplausos ou congratulações. Não havia nenhuma lembrança do que fiz de errado ou certo. Apenas uma satisfação, uma endorfina que entorpecia meu raciocínio e adrenalizava meu corpo. Depois das apresentações, sentar numa mesa com meus irmãos, dar uma volta com minhas amigas, bebericar algum álcool e tentar conversar trivialidades... tudo aquilo me trazia um prazer enorme, mas silenciosamente distante. Eu havia superado um desafio despretensioso, porém proposto com valentia e determinação, e aquele passo destemido agora parece querer me levar a novos horizontes.



Escrito por Leandro às 12h58
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Epístola ao Rei

Nunca soube como alcançar os seus ouvidos: a vida inteira acenei pra ti como uma criança eufórica e atrapalhada que tenta chamar a atenção de um distraído pai. Portanto, no anseio de ser informal sem ser desrespeitoso, escrevo-te uma carta. Mais do que a devida intimidade, falta-me também a coragem, e a força, para um contato mais aproximado – paciência, a culpa dessas fraquezas é só minha: releve. Mas essa despretensiosa missiva nada tem de especial, não – eu sei que pode não soar bem aos seus ouvidos, mas vamos fingir que eu tenha escrito muitas delas, e o que seria ainda mais irônico, vamos fingir que você tenha até respondido algumas.

 

Nem saberia por onde começar. Não pretendo perder nosso tempo – eu sei que você tem muito, mas eu nem tanto. Tampouco quero te entediar com clichês – você tem coisas mais importantes para se preocupar, com certeza. Bem, então, agradeço a inusitada convivência com Bruce, por exemplo. Ele me ensina humildade com seu companheirismo respeitoso e incondicional. E manda um beijo saudoso pra Loah, falando nisso. Diga as minhas sobrinhas que perdoem minha distante negligência. Diga a elas que aceitem esse amor esquisito. Eu não soube como lidar com minha família, e provavelmente aprenderei a compreender esses sentimentos tarde demais – conforta-me a certeza de que eles sabem que fui eu quem bagunçou tudo. Peço desculpas por minha debilidade, minha desestrutura, minha comodidade, minhas defesas. Perdoe essa contraditória fragilidade que construiu sólidos muros ao meu redor, nesse bunker de mim mesmo.

 

Agradeço a Flora. Eu sei, prometi fugir de clichês, mas é inevitável reconhecer a influência de seu bom-humor e de sua criatividade em minha vida. Leve, ágil e feliz Flora, rodopiando com seu vestidinho sujo como uma folha que desce dos céus a cantarolar com seu inglês impossível. Só lamento não ter na função de pai a desenvoltura que ela precisaria, ou a presença que ela merece. E perdoe minhas desventuras – se eu causei tanta dor nessas andanças foi por não caber o amor nesse coração que você me deu. Agradeço os amigos e ainda mais as amigas: nisso você caprichou, eu reconheço! Cabe aqui aquela piscadela entre cúmplices, como se eu tivesse a liberdade – mas é algo que eu faria só para quebrar o gelo.

 

Enfim, quero me reerguer, mas acho que preciso de uma forcinha aqui. Então faça um desconto e embrulhe pra viagem: não pretendo ficar nem um minuto a mais nem um minuto a menos do que o necessário. Portanto, seja razoável.

                       



Escrito por Leandro às 10h01
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Le Vallée de la Douceur

Um reencontro impulsivo. Ambos sabiam das improbabilidades estatísticas, e parte de nós duvidou mesmo até o último segundo – meras trevas de incerteza que como relâmpagos negros antecederam a aurora gloriosa de seu sorriso. Sua silhueta esguia o sustenta como a um altar de marfim que paira no horizonte banhando de luz e néctar as minhas lembranças. O hiato cruel que se formou entre nós se esvai indefeso e impotente conforme nos aproximamos – não me lembro como resisti ao impulso de correr em sua direção. Seu corpo ainda delimita um espaço leve e delicado entre meus braços, um pedacinho tangível e perfumado do próprio céu. O abraço frágil, e ainda quase tenso, é como uma última evidência física, a prova sensorial que confirma o inusitado à incrédula razão. Aninha carinhosamente em seu peito as flores que lhe dei, com a gentileza de não ligar que eu as tenha colhido em seu próprio jardim. Acolhe-me em seu sótão no conforto aconchegante de sua eloqüência, conta-me do mundo lá fora com a cumplicidade de uma saudosa irmã, aceita-me achando graça nas minhas confusões. E nesse frugal desjejum de nossos corações, redescobrimos o encanto de ser e estar. Existimos, mas nenhuma prece é longa demais – o que também acontece com certas canções. E afinal, com a elegância de quem escapa de bandidos nos passos de uma doce valsa, você me guiou de volta a mim mesmo enquanto eu sonhava acordado. Tivemos que esperar para celebrar, o tempo chegou e foi embora, e agora, os minutos que não me passam aí ao seu lado de repente soam opacos por aqui.

 

Por onde estivemos esse tempo todo?



Escrito por Leandro às 15h17
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Sangrar

Lembra quando confessei minha contida alegria e até uma enrustida gratidão ante ao mero som de sua risada? A gente se abraçou com os olhos e nunca um encaixe foi tão perfeito. A noite veio e você adormeceu exausta em meus ombros: eu lhe cedi meu cobertor, matei pernilongos em silêncio, velei teu sono lânguido e te acordei pedindo para que me ensinasse a te fazer feliz.

Lembra das suas coxas trêmulas apertando meus ouvidos enquanto eu me embriagava em sua doçura morna e macia? Suas mãos inquietas, incrédulas, impossíveis. Meu corpo reagia à mera presença do seu, celebrando sua existência, todo otimista e presunçoso a cada vez que você passava perto de mim.

Lembra quando eu lhe interrompi pra falar dos seus olhos? A luz preguiçosamente amarelada daqueles postes anêmicos conseguia imprimir neles um brilho absoluto, e eu nos perguntei como é que um mero tom de marrom podia ser tão lindo assim. Nós rimos e nos esquecemos do que falávamos, quando um abraço conseguiu resumir tudo aquilo que eu jamais consegui dizer. Ah, esse seus olhos, plenos orbes de escuro cobre que nas sombras aguardam o despertar das pálpebras a cada piscada, como cortinas que inauguram e encerram temporadas de espetáculos escandalosamente breves e únicos – um longo terço de segundo que pode absorver toda eternidade e efemeridade da arte em sua sublime essência. Olhos que acolheram os meus com um carinho inédito, e tudo o que eu fiz só trouxe lágrimas ao castanho mais lindo que minhas retinas já encontraram.

Você me disse que a gente tem o que merece, mas me mostrou que a gente não pode ter o que não merece.  Você me disse que vai se lembrar pra sempre, mas que já me esqueceu. Você me estendeu sua mão e disse: vem comigo – e eu fiquei quando você se foi. Constatei a incrédula solidão de quem chega tarde demais à rodoviária, e ao refazer as contas das parcas moedas em meus bolsos demorei a perceber que a árdua caminhada era inevitável. Mas eu que não tinha nada, tive tudo e nada fiz, sigo os seus passos, pois conheço sua trilha. Eu te alcanço, te mostro o quanto eu quis e a gente volta junto até certo ponto, para seguir adiante por novos caminhos. Mas você toca meus lábios trêmulos, me olha nos olhos uma última vez e lamenta não ter mais nada para me dar – foi a coisa mais triste que eu já ouvi na minha vida. Você me mostra suas unhas ensangüentadas de quem cavou um tumor pra fora de seu próprio coração, e eu, me flagrando na resignada e patética esperança de ao menos ter sido benigno, percebo que consegui arruinar tudo, mais uma vez.

Mas com um resto de dignidade, eu colo os cacos que consegui reunir de minha coragem pra prometer a mim mesmo que foi a última vez que isso aconteceu.



Escrito por Leandro às 11h41
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Escrito por Leandro às 14h09
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Teorema do Inevitável

Pois é, rapaz, isso não se faz
Tanto amor você ganhou e o que você fez?
Não cuidou do sentimento, que deixado ao relento
Padeceu, despedaçou e desfalecido se desfez.

E então, o que me diz, parecia tão feliz
No começo eu bem me lembro, não era bem assim?
Sua performance ali, tão seguro de si
Mas fugiu do seu controle e agora chega ao fim.

E sobre a cara-de-pau que se expôs tanto
Rola agora esse desesperado pranto
Como é patética a dor do inconseqüente!

Tudo nessa vida é causa e efeito
Esqueça dela se não tem mais jeito
Pois o mundo é pequeno, gira rápido e pra frente.

 

Hoje eu entendo a sua amigável simpatia
Sua pré-disposição enquanto eu sofria
Hoje o feliz aqui é você – sorria
Pois tudo está como você bem queria.

Foi coincidência? Ou foi planejado?
Estive desatento com você do nosso lado?
Não posso negar que fui eu quem agiu errado
Mas não consigo digerir esse rancor amargurado.

Dói-me tanto vê-la sorrir ao lado seu
Ela ainda me ama e você não percebeu
Como é ácida a náusea do arrependimento!

Onde eu estava com a cabeça! O que me deu?!
Onde é que você é melhor que eu?
Não sei se suportarei esse tormento...

 

Oh, taça de fel! Destino cruel!
Embriago-me no sal da desilusão!
Afaguei-te no acalanto desse amor que eu amei tanto
Dei-te colo, abrigo, vela, figo, vinho e pão!

Fiz o que foi preciso, acreditei no teu sorriso
Acreditei na força do amor unilateral
Como pode um perdão trazer tanta destruição?
Como faz pra esquecer tamanho mal?

E se estás de novo com ele agora
E se sou eu o infeliz que chora
A culpa não é minha, de fato.

Nem tua, puro anjo e coração
Tampouco dele, pérfido cão
Mas do Amor: cego, burro e ingrato.



Escrito por Leandro às 14h53
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Luz Lilás

É claro que ela veio – espero ansiosamente para que entre logo. Presto o mínimo de atenção possível aos sons emitidos pelo meu bem-intencionado interlocutor, mas compenso a grosseria concordando nervosamente com alguns acenos de cabeça. Espero as amigas dela perfazerem o circuito interminável de animados abraços e beijos. Cumprimento as duas com sincera alegria em revê-las, porém confesso aqui que o que senti foi uma inominável gratidão por me darem a esperança – não, a certeza de que ela veio junto. Disfarçando minha súbita timidez com uma distração improvisada, simulo tocar no balcão as teclas de um piano cujas convenientes notas preenchem o ar – essa pressão atmosférica que se forma no espaço um segundo antes de seu corpo preenchê-lo. E nesse eterno segundo antes de vê-la, o ambiente ao redor escurece um pouquinho – muito pouco mesmo, ninguém percebe – para depois explodir numa luz lilás. Num azul royal, límpido, esguio e esportivo. Num preto tímido e lento. Num fascinante sorriso horizontal sobre passos curtos e contidos: Ela veio!

Mal consigo esperar que ela cumprimente a todos. Um beijinho estalado num rosto fino e um abraço rápido, onde eu tento sem sucesso segurá-la por um milésimo de instante a mais. A sensação de que fiz tudo errado se dissipa pelos meus poros conforme ela termina de chegar, como um doce remédio faz efeito entorpecendo a dor de vê-la assim tão raramente. Tenho que dizer algo bacana, algo esperto – sinto-me um imbecil quando ela desdenha meu desenho com uma discreta e simpática indiferença. Tão jovem! Tão frágil! Sinto um impulso de tocar os finíssimos pêlos de seu antebraço ou de arrumar uma pequena mecha de sua franja sobre os óculos quando percebo que sei tão pouco dela, e ainda assim carrego a inexorável certeza em minh´alma de que cuidaria de seu coração com um carinho que ela jamais conheceu. "Foi só para dar um alô", ela justifica sua retirada levando consigo o chão sob meus pés. Dá um tchau generalizado e preguiçoso antes de sair, mas posso jurar que o instante a mais que eu não consegui naquele abraço eu ganhei nesse último olhar. Meu peito arde em júbilo, e eu demoro pra me recompor. Hesitantes e carinhosos, seus olhos foram tatuados em minhas retinas. E é com eles que fico o resto da noite. E dos dias. Até vê-la novamente.



Escrito por Leandro às 11h45
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A Tempestade

Amigos e amores atravessam os oceanos.

A lembrança da alegria de um livro ou canção.

Sem sentido, a boemia encurtava os lânguidos anos

entre uma e outra fugaz paixão.

 

     Como numa festa que termina de dia

     deixando cheiros que a casa desconhecia.

 

Seus quadros hibernam em caixas de papelão.

Sua música lacrada pelo frio inevitável.

Espalhou suas poucas coisas na aspereza do chão,

e escolheu metade delas com um esforço louvável.

 

     A outra metade, e todo o resto, ele sabia

     que levá-la consigo ele jamais poderia.

 

Onde deixar suas plantas, o que fazer de seu cão?

O peso de uma história que o destino arrasta.

Trancar as portas e as memórias do coração,

Coisas que o tempo, com sorte, afasta.

 

     A esperança da misericórdia é a melancolia

     com a qual, companheira fiel, ele viveria.

 

Precisou de uma coragem que sabia que não tinha.

O soldado desarmado que não abandona seu posto.

E ainda, rindo, ironizava: “Que sorte a minha!”,

mesmo quando as lágrimas riscavam seu rosto.

  

     Uma força sem a qual jamais sobreviveria

     em seu peito crescia, dia após dia.

 

Recomeçou e errou de novo, inevitavelmente.

Mas jamais desistiu de terminar a sua dança.

Assim tudo passou, pois nada é permanente,

apenas a vontade, a arte e a esperança.

 

     Enfim a vida se ajeitou, como o tempo assim queria,

     E não tardou a relembrar-se das doçuras da alegria.



Escrito por Leandro às 16h16
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Pois é rapaz, isso não se faz

Tanto amor você ganhou e o que você fez?

Não cuidou do sentimento, que deixado ao relento

Padeceu, despedaçou e desfalecido se desfez.

 

E então, o que me diz, parecia tão feliz

No começo eu lembro bem, não era bem assim?

Sua performance ali, tão seguro de si

Mas fugiu do seu controle e agora chega ao fim.

 

E sobre essa cara-de-pau que se expôs tanto

Rola agora desesperado pranto

Como é patética a dor do inconseqüente!

 

Tudo nessa vida é causa e efeito

Esqueça dela se não tem mais jeito

Pois o mundo é pequeno, gira rápido e pra frente.

 

 

Hoje eu entendo a sua amigável simpatia

Sua pré-disposição enquanto eu sofria

Hoje o feliz aqui é você – sorria

Pois tudo está como você bem queria.

 

Foi coincidência? Ou foi planejado?

Estive desatento com você do nosso lado?

Não posso negar que fui eu quem agiu errado

Mas não consigo digerir esse rancor amargurado.

 

Dói-me tanto vê-la sorrir ao lado teu

Ela ainda me ama e você não percebeu

Como é ácida a náusea do arrependimento!

 

Onde eu estava coma cabeça! O que me deu?

Onde é que você é melhor que eu?

Não sei se suportarei esse tormento...

 

 



Escrito por Leandro às 21h17
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O tiozinho

A segunda dose já não é mais a primeira,
e nem por causa disso ela chega a ser a terceira.
Os distraídos pousos do copo no balcão
carimbam semi-círculos nessa velha madeira.

E chamou minha atenção, sem saber eu a razão,
Esse tiozinho falando sozinho, já de certa idade,
"A cerveja mais gelada desse lado da cidade.
O que mais posso querer numa noite como essa?"

Com seus olhos firmes, cobertos de razão,
um jeitinho tímido e sem nenhuma pressa.
Havia uma certa aura de nobreza em sua miséria,
virou o primeiro copo com sede, orgulho e paixão.

"Sabe, minha fia, não pode ser assim tão séria,
você, sua sorte ou a vida que te leva.
Cada dádiva, dúvida ou cruel padecimento
Deus não dá pra gente sem razão ou merecimento.

O que foi que você fez com o tempo que eu te dei?
Ele há de perguntar pra você no Julgamento.
E você lembrar-se-há de cada instante de sua vida,
Cada sopro, som, susto ou sentimento."

"Cada segundo de existência", o velho ainda me diz,
"Se você por na balança a alegria e o sofrimento,
perceberá na mesma hora, mas não sem algum tormento,
Quantas chances você teve para ser muito feliz.

Quanto desperdício, quantas lágrimas em vão,
quanto apego desmedido ou paixão sem fundamento.
Mas ainda assim não haverá arrependimento,
pois quantas alegrias já coube nesse coração?

Percebe, minha fia, que você nesse momento,
tem a bênção de poder com uma simples opção,
fácil mas solene, como um justo juramento,
e leve mas profunda, como uma bela canção.

Escolher ainda hoje, sob o seu discernimento,
como vai viver sua vida, um dia após um dia.
Não há um só segredo nesse simples procedimento,
nada além do que você certamente já sabia.

Mas é algo que não pode cair jamais no esquecimento,
fazer cada escolha sua com muita sabedoria.
Amor no coração, boa-vontade e alegria,
é tudo o que você precisa nessa vida, entendeu minha fia?"

Com essas palavras ele acariciou meu rosto,
com muita ternura, calma, respeito e carinho.
Paguei sua cerveja sem saber o que dizer,
e foi-se embora assim o meu leve e bom tiozinho.

Foi-se sozinho, seguiu seu caminho,
eu quis abraçá-lo mas não consegui.
Deixou-me emocionada, minha´lma tocada,
Refletindo sobre tudo aquilo que ouvi.

Tanta força e coragem, que eu preciso e não tenho,
esteve sempre, esse tempo todo, que ironia, bem aqui.
E sobre todas aquelas dúvidas quanto ao futuro incerto,
sigo adiante, com a certeza simples de que vivi.

Sei que nem sempre fiz o melhor que eu podia,
Mas sei também agora que eu posso ainda mais.
É essa certeza que trarei comigo, essa alegria,
essa serenidade doce de escolher viver em paz.

 



Escrito por Leandro às 15h04
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Lamento & Conforto

Enquanto eu, penoso, testifico esse relato
Brincas com tua filha, alimentas teu cão.
Onde repousarás teus enfadados tormentos
que não na inquietude do meu sofrido coração?

Foste pérolas aos olhos, plumas ao tato
Lembrar de tua voz, canção fascinante.
Um perfume inebriante seduzindo o olfato
Mas onde estarás que não aqui, nesse instante?

Cada palavra que teci pra ti - oh, tenro começo!
São como rudes cartas expostas à tua mesa
consciente de que cada sílaba tem seu devido preço,
Estão ali, viradas para ti, sem ordem ou clareza.

São signos óbvios de infundadas pretensões,
Mas sentido fazem apenas para ti, de fato.
Outrora fractais de ingênuas confusões,
Mas sempre soubemos de tudo, como num pacto.

E as velhas cartas, empoeiradas, ainda lá estão
Provas do vão esforço de um bufão, a escória
Tateando entre símbolos, buscando a equação
Que solucionaria em seu coração a tão sonhada glória.

As deixemos lá, portanto - um dia contaram uma história
Sobre aquele tolo insolente e suas metáforas vazias
Que no escuro e no silêncio de impessoal memória
Repousam para sempre como lembranças em mãos frias.

...E pensar que tudo começou com desenho e bombom!
Falando de arte e música, livros e cinema
Diálogo afinado, compassado, ritmo e tom
Harmonia nas linhas de um pueril poema.

E o vilão Destino, que sempre se mostrou traquinas
Com seu senso de humor sordidamente distorcido,
Pousou-te linda ante minhas incrédulas retinas
Só para tirar-te de mim, pobre desiludido!

Quem seria eu para julgar a graça da providência
Ou os desígnios verdadeiros para tão cruel provação.
Porém em meu íntimo desejava ter a indecência
de fingir que sou valente e honrar meu coração.

Mas esse fardo amargo, de culpa consentido,
confessa certa vergonha e lamenta esse passado.
Fui imaturo e inconsequente, infeliz e iludido,
Incompetente e incapaz de manter-te ao meu lado.

Pois são fortes as circunstâncias, os poderosos contratempos.
Mas espero de bom grado por esse infinito bem-querer.
Portanto indiferente às inconstâncias dos momentos,
Meu amor foi sublimado, e nunca hei de te esquecer.



Escrito por Leandro às 14h20
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Crônica do amor em vão

Um pesado pêndulo oscilando entre mornas conveniências - assim estava aquilo que ela chamava de seu coração. Logo que rompeu seu antigo relacionamento, cujas discussões superficiais com o frágil e dependente namorado haviam assumido uma desgastante rotina, vinha envolvendo-se com um cobiçado jovem, belo e divertido, com quem permitia certo entretenimento quando lhe interessava. E recentemente conheceu um homem mais velho, doce, maduro e gentil. Sentiu-se imediatamente atraída por ele e seus cuidados, iniciando um frugal romance, uma realidade paralela - e por existirem em universos distantes e incompatíveis, manteve convenientemente o caso com ambos mesmo sem saber ao certo a razão, pois não tinha o hábito de questionar as instáveis batidas de seu coração.

Um era lindo e espetacular na cama, enquanto o outro a encantava com sua inteligência e sensibilidade. O carinho de um evidenciava a falta de tato do outro, enquanto a descontração deste contrastava com a caretice daquele. Sem mesmo jamais se conhecerem, um acabou virando um reflexo distorcido do outro, completando-se, revezando-se num desconcertante balé em torno de seu próprio espelho. Ela usava ainda de flertes circunstanciais como numa busca descrente por alguém que pudesse tocar mais a fundo sua alma, traindo-os numa fidelidade que nunca existiu. A banalidade dessas relações a fez trilhar um caminho obscuro onde sua sina viciosa a afastou de seu próprio coração, perdendo-se entre os distantes escombros de uma utopia não-vivida e os abortos prematuros de sentimentos confusos. Cada um dos instantes, vividos intensamente, empilhou-se um sobre o outro num canto escuro, formando um triste depósito de momentos vazios.

Sim, foi muito amada, mas não, nunca amou. Essa constatação a atingiu cruelmente no oco de seu peito enquanto assistia ao inevitável: seus casos esvaíram-se no ar rarefeito como uma insustentável neblina, dissipando-se em nada. E ironicamente sentiu-se só, vítima de seu próprio medo, da incapacidade de viver consigo mesma. Sozinha, a contemplar fotos e cacos de amores que poderiam ter sido se ela soubesse como. Mas agora não fazia diferença, ela sabia que era tarde demais: não sabia mais o que fazer com o amor que  sempre buscou, mas nunca sentiu.



Escrito por Leandro às 16h11
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Parágrafo Único

Tenho pensado em ti mais do que eu deveria - talvez mais mesmo do que eu gostaria. Um ímpar impulso de querer compartilhar contigo cada alegria, silêncio ou perigo. Os mistérios desse sorriso, Sol que nasce em sua face serena, esse rosto lindo, roubando o piso sob meus pés. Você já estará vindo? No convés de sua embarcação, estará sorrindo pra mim, me olhando assim de viés, e através, desse coração entregue? Estará pensando em mim, lembrando, rindo enfim das gracinhas pueris que fiz pra você? Não negue! Percebe? Meu coração ali, batendo por ti, não vê? Pegue! É pra você, uma oferenda pagã à Deusa do Desejo. Minha pretensão vã, sem fundamento, querer acabar com meu tormento, podendo assim como eu a vejo, ter pra mim cada suspiro teu. Posso? Sei que não, eu sei, mas peço mesmo assim, um santuário nosso, obra-prima, concerto grosso. Relicário de marfim, pedra e osso, diamante, madeira de lei. Enlouqueço, reconheço! Forço a rima, torço minha sina e invento enfim, nesse rompante, palavras que não sei, versos que desconheço. Velas ao vento, a bela navegante: correnteza acima nesse mar de mim. Tá afim? Te aguarda um simples cais, mas bem aconchegante, que só sabe te querer mais e mais a cada instante.

Escrito por Leandro às 17h25
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Em meados de abril

Prezada Madame Parflitti, há quanto tempo! Como tem passado?

Pois basta pensar no que justificaria esse dolorido hiato que se formou em nossa comuinicação e o inevitável tabu se manifesta, um tópico incômodo, inconveniente tema: Ms. Irkutsk.

Definitivamente, minha cara, não sentei aqui para falar-vos dela e de seus inconstantes artifícios, mas ao ignorar o fato em questão eu correria o risco de soar frio e desonesto - o que descaracterizaria nossas deliciosas missivas. Vós, como eu, que de certa forma torceste para que tudo desse certo, podeis em determinado momento sentir-vos envolvida demais, por serdes tão próxima aos protagonistas - principalmente perante ao insucesso de minha dedicada empreitada. Vossa amiga e eu, em medidas de esforços diferentes, também tentamos - cada um ao seu modo e segundo seus próprios propósitos.
 
Em um determinado instante ela até quis que desse certo - mas as coisas nem sempre são como queremos, principalmente as do coração. De minha parte vos asseguro, minha amiga, que à essa altura da ópera eu sei o que quero e o que não quero, o que quis e o que não quero mais: toda escolha tem suas consequências, paciência. Pronto - não precisaremos nunca mais abordar esta questão, se vós assim o desejardes. Para mim, já beira à indiferença.
 
Pois então, como tudo começou, voltamos onde estávamos, mais ou menos felizes.
 
Agora tudo o que sei a vosso respeito ouço de teu glorioso e jovial cavaleiro Lapigne, é claro. Ele é deveras esforçado, deslumbrado com as doçuras da vida e as delícias do amor - está ansioso, o rapaz. Torço sempre, minha cara, para que o brilho de vossa luz alcance os predestinados méritos. Sempre soube que merecestes ser feliz, e quase hesito em julgar quem de vós dois é o mais felizardo - embora confesso acreditar que por vezes vosso jovem desconheça a verdadeira e profunda dimensão de seu tesouro.

Sei que vossos dias são preenchidos por ocupações muito mais dignas de vossa atenção, mas ainda assim aguardo tuas breves cartas. Ler-vos às velas ainda é meu único passatempo - sua companhia sempre me apraz, muito.

De meu discreto e solitário feudo, em meados de abril, aguardando a luz de uma improvável visita.

Sempre vosso,
Visconde de Fogassy.



Escrito por Leandro às 17h29
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